VACILLATION

 

Wladimir Garcia - UFSC

 

 

A obra de W.B.Yeats favorece muitos cruzamentos filosóficos, quer pela concepção estética que eventualmente possa apresentar, quer pelos vários diálogos que o autor propõe. Entre os pares que elege, poderíamos facilmente destacar Platão, Plotino e Hegel, entre outros da tradição inglesa, aos quais o poeta refere-se em vários momentos de sua prosa. Não se espere, entretanto, num poeta que até o fim resguardou a dignidade da arte e da imaginação, qualquer forma de dependência ao conceito. Rastrear tais referências seria uma trabalho tão interessante quanto exaustivo, ao qual este texto, invejosamente, esquiva-se. Interessa-nos, entretanto, o sistema filosófico público que constitui A Vision em relação com um sistema privado que o poeta confessa[1], e que, notavelmente atormenta o anterior, ao questioná-lo com certa ironia, inclusive.

Isto instala no interior do pensamento de Yeats uma oposição que abre as antíteses que fundamentam seu sistema universalizante.

Yeats, de fato, teve uma relação ambígua com a Filosofia, a qual via como um perigo:

 

God guard me from those thoughts men think

In the mind alone;

He that sings a lasting song

Thinks in a marrow-bone [...][2]

 

Neste sentido, ao mesmo tempo que  procurou os sistemas de pensamento como uma forma de aprofundar a sua estética e deslocar as contingências do mito, a sua força lírica emerge como forma de resistir ao sistema que criou, abrindo-o. Muito de suas idéias estético-existenciais remetem às tradições filosóficas, ocidentais e orientais, as quais via como uma origem indiferenciada, ou, acrescentaríamos, uma não-origem: ‘if some philosophic idea interest me, I tried to trace it back to its earliest use, believing that there must be a tradition of belief older than any European Church, and founded upon the experience of the world before the modern bias’[3]. Tal relação com uma raiz múltipla, onde a conexão com a idéia presente (no caso de Yeats, isto significa o sistema apresentado na obra A Vision) afunda nas profundezas de um passado, remete-nos à idéia de rizoma, como bem observou um dos críticos de Yeats, James Olney[4]. A idéia aqui, tomada num contexto diferenciado em relação à Deleuze/ Guattari, é retraçada à sua origem platônica, onde rizoma aparece inserido em um sistema metafísico, como uma raiz aérea, paradisíaca, da qual as almas crescem em direção à terra. Em Yeats, tal idéia é redimensionada: os ‘cidadãos da eternidade’, ‘um povo mais antigo do que o mundo’, crescem destas raízes invisíveis em direção a um labirinto divino. Este labirinto poderia ser entendido como um Cosmos envolvendo as estruturas humanas de pensamento e sentimento. Em termos das manifestações daquelas raízes, apareceriam os pensadores dos quais Yeats bebeu, como Platão, Empédocles, Parmênides, Heráclito e Pitágoras, lista a qual poderíamos acrescentar, tomando momentos bastante específicos da obra yeatsiana, Plotino, Kant, Hegel e Nietzsche.

É desde esta múltipla raiz comum, a qual Yeats chama de ‘fibrous darkness’[5], formando uma unidade compósita de onde todas as coisas viriam, que muitos estudos aproximativos tornam-se possíveis. Interessa-nos, portanto, esta percepção das idéias de Yeats em outros, bem como a apreensão ou releitura que o poeta fez de conceitos que cruzam seu campo,  o que implica a procura de uma linguagem capaz de ler estas heterogeneidades em conjunto.

Vale lembrar a natureza múltipla das fontes de Yeats. Ainda que se possa falar extensivamente  de seu contato com a tradição platônica, sabe-se que seu sistema deve muito à mitologia celta, a outros poetas como Blake e Shelley e às suas experiências de ocultismo, enquanto radicalização de uma fuga dos universais, naturais ou humanos. Platão, entretanto, forneceu-lhe um design  abrangente. De Heráclito viria um traço mais específico, se  lembrarmos o aforisma  pelo qual o presente vive a morte dos outros (dele próprio, neste caso). Além disto, poderíamos investigar a idéia do número em sua obra. Olney observa com precisão a importância do número desde Pitágoras: ‘numbers...were in the structure of reality before human mind existed to observe the fact’[6].   Com efeito, isto é confirmado na organização quartenária do sistema que Yeats articula em A Vision, onde os quatro elementos básicos movimentar-se-iam em ciclos completos de 28 fases, ocasionando um complexo de possibilidades[7]. O Cosmos, desde a antiguidade, é visto como numérica e ritmicamente organizado. Tal apresentação quartenária vai ser redimensionada por Guattari[8], por exemplo, ao verificar no número 4, não um acomodamento do sistema ou mera duplicação da antinomia, mas uma potencialização do infinito, onde temos 4 + ‘n’. Os números, desta forma, fundamentariam a noção de archai em Yeats, sendo anterior à própria substância. Para Plotino, citado em várias obras de Yeats[9], o número seria o princípio e fonte da realidade dos seres.

Ainda que se possa argumentar que estas idéias conduzem a uma origem e a uma visão esquemática da história da humanidade (e esta vai ser a principal limitação do ‘sistema’ do poeta), a noção, em Yeats, de um fluxo que atravessa a molécula e o Cosmos, relacionando uma vida interna profunda, parece produtiva e mantém contato com as idéias filosóficas privilegiadas neste estudo.

Interessante observar como Yeats não toma crédito pela possível filosofia que possa emergir de seus escritos, como se por ele atravessasse um pensamento impessoal, que atravessa estratos não-humanos, sendo a sua mente apenas um momento de articulação: ‘I go beyond those minds and my single mind and discover that I have been describing everybody’s struggle, and the gyres turn in my thougts’[10]. Ou numa outra equação mais elaborada, onde Yeats relaciona uma  Anima Mundi a uma anima hominis[11]. Fica claro, entretanto, que o passado em que a mente do poeta habita não é tampouco histórico nem pessoal, mas um  passado coletivo e cósmico; inconsciente e universal. Em A Vision isto corresponderia ao termo que ele desloca de Blake: a Grande Mente que alimenta o universo. Desde um sistema platônico, a filosofia em Yeats é tida como processo, uma transição do inconsciente ao consciente. Curiosamente, nesta transição, certos elementos da filosofia clássica tornam-se símbolos, sendo esta simbologia uma das maiores vertentes interpretativas da crítica literária dos anos 50 e 60, quando a última fase da poesia de Yeats parece ter sido ‘descoberta’[12]. Um exemplo disto, são os giros filosóficos convertidos em escadas espirais; os cones, triângulos, quadrados e círculos, correspondendo aos símbolos da escada espiral, da árvore, da Torre e da lua cheia[13].  A noção de giros, por outro lado, associada ao redemoinho[14]em A Vision  implica o envolvimento não somente com os mortos das diversas eras, como também com as civilizações e, por conseguinte, contribui para a  caracterização de um presente  agônico. Neste sentido, Yeats reconhece que sua filosofia não contribui para os prospectos do futuro deste mundo. De fato, desde A Vision, ele reconhece a vida como ‘irrational bitterness, no orderly descent from level to level, no waterfall but a whirlpool, a gyre’[15]. Giros, desta forma, constituem-se como eventos da cosmogonia do poeta, aquilo que move as relações antitéticas das personae que habitam o seu universo.

A força da obra de Yeats, parece, ela mesma, envolver (analogamente, como num redemoinho), opostos. Há quem veja até mesmo a presença de Kant em seu sistema. Snukal[16] parte de um pressuposto – discutível – na obra de Yeats, qual seja, a sua rejeição de respostas transcendentais, além da suposição do real como criação humana. Ainda que seja inegável que Yeats tenha se interessado nas antinomias de Kant, parece-nos que os mesmos postulados possíveis de aproximá-los, divide-os. De fato, como reconhece Snukal[17], Yeats afirma em A Vision, numa inversão irônica, que a filosofia forneceria ‘metáforas para a poesia’, e ele mantinha-se atento para o risco de uma substituição desta por aquela. Entretanto, ele duvida de que as antinomias pudessem ser resolvidas: ‘as I prefer: thesis, there is an end; antithesis, there is no end’[18].

Para Yeats, a realidade é uma esfera abrangente, marcada por uma condição atemporal e não-espacial. Contudo, os atos do espírito em vida originam-se de uma liberdade imanente a cada um, constituindo o que ele entende por giros. Este giro ou cone é um símbolo central em  A Vision, retomando a noção de Blake de que Deus só age em seres existentes. Ele se traduz como um movimento que atravessa estes seres, combinando linha e plano, tempo e espaço. Conforme o poeta, o giro se contrai ou se expande de acordo com a objetividade e com a subjetividade da mente[19]. O caráter humano, seu daimon, definir-se-ia pela posição que o giro assume em relação ao tempo e espaço que articula. Ao contrário de Hegel, portanto, Yeats não vê o individual determinado pelo absoluto, mas como uma soma de experiências auto-independentes, além de auto-determinado.

Voltando ao exame de A Vision, percebe-se as idéias da obra espalhadas em vários lugares ao longo de muitos anos precedentes e posteriores àquela tarde em que o poeta assim descreve: ‘On the afternoon of October 24th 1917, four days after my marriage, my wife surprised me by attempting automatic writing’[20], o que resultou no livro oito anos depois. A Vision é um complexo emaranhado, para evitar a expressão ‘obra confusa’,  que seria injusta. Talvez ela, também, a exemplo do que nos fala Derrida acerca de Joyce, requeira os seus leitores. O próprio Yeats parece distanciar-se dela ao enfatizar o papel de seus instrutores e reafirmar sua ironia em relação ao filosófico. Trata-se de uma obra que luta, como observou Bloom[21], entre a redução de sua própria dialética e a procura de um vitalismo que nega a standardização do pensamento e da experiência, da hegemonia analítica. Talvez, por isso mesmo, ela não deixe de ser grande (e legível, num contexto de indecibilidade reconstruído por Derrida). A Vision é uma prosa que monta progresiva, mas irregularmente, um sistema cosmológico, sendo dividiva em 5 livros: ‘The Great Wheel’, ‘The Completed Symbol’, ‘The Soul in Judgement’, ‘The Great Year of the Ancients’, ‘Dove or Swan’ e um epílogo, ‘All Souls’ Night’. Além disto, dependendo da edição (poder-se-ia falar, por exemplo, de A Vision I e A Vision II[22]) há introduções, extratos e anexos.

É fácil  identificar na obra um esforço superficial pela formação de um corpo. O motor para este conhecimento seria um cone duplo, antitético e primário. Na medida em que um cone movimenta-se, ele admite dentro de si o movimento contrário do outro cone, com o completo movimento de rotação coincidindo com as 28 fases da lua. A complexidade deste duplo movimento acentua-se na medida em que Yeats inscreve o número 4 dentro dele, ou seja, as 4 faculdades ou componentes psíquicos de cada homem  (Yeats usa para a visualização disto gráficos um tanto insuficientes)[23]. Estas, faculdades associadas a cada uma das tinturas (cone primário e secundário), explicariam não somente as vidas individuais e suas biografias, mas  toda a história ocidental. Ainda que o poeta não fosse rigoroso epistemologicamente, nem procurasse fixar uma dialética, o seu cone primário poderia ser relacionado com a objetividade, desde a relação com a exterioridade das coisas, e o antitético com subjetividade, aquilo relacionado com a esfera individual. Contudo, esta relação não é rigorosa, na medida em que Yeats não considera possível uma pura objetividade e uma pura subjetividade. No seu sistema eles coexistem, interpenetram-se e, até mesmo, definem um ao outro. Ele desloca, pois, tais termos, associando-os com o movimento lunar (antitético, subjetivo e individual) e o movimento solar (primário, objetivo e comunal). Este  vocabulário ajuda a compor o movimento cíclico da Grande Roda.       

O que resulta deste quadro é evidentemente a arte (e o artista no seu êxtase individual) e a história (a sabedoria antiga e hereditária, o dado). Sua forma de divindade cíclica constitui um Deus processual, gnóstico, compósito, sobre-humano (ainda que sua vinculação ao Cristianismo permaneça ambígua). Um Deus, portanto, da arte. No caso de Bizâncio, um Cristo livre de humanidade na Sua perfeição. Ou uma religiosidade ‘natural’[24], a qual conduz a um retorno à Unidade do Ser. A questão que sempre retorna é um certo paradoxo do sistema tal como apresentado, tendendo ao fechamento esquemático enquanto inscreve o desejo expresso de Yeats em elaborar um sistema que deixasse a sua imaginação livre para criar e fazer de tudo o que foi criado parte da história de sua alma. Seu antitético, criativo, eu - self - e sua primária alma -soul- parecem, entretanto, realizar um diálogo,  um ‘assemblage’ de enunciação, nos poemas que seguiriam  A Vision, o qual apenas anuncia um predomínio das forças antitéticas do Desejo daquele envolvido na procura.

Uma descrição da situação de cada fase - e daquilo que é reunido em cada uma - apresentada na parte mais interessante do Livro I de A Vision, ‘As vinte-e-oito encarnações’, seria inapropriado aqui. Contudo, vale mencionar a fase 17, aonde Yeats se inclui. Nesta fase, o acaso dá forma ao destino, assim como cada imagem amada adquire uma forma corpórea. Não há desejo porque não há esforço[25]. Nesta fase, a posição das 4 faculdades leva o poeta a concluir pelo efeito da reunião de simplicidade e intensidade, ou simplificação através de intensidade. Em Yeats, a verdadeira máscara que emerge é a da solitária sabedoria, a exemplo de Shelley, seu companheiro de fase. Curioso observar como Yeats define-se por um movimento que lembra aquele ‘becoming’ desenhado por Deleuze/ Guattari: ‘ all now flow, change, flutter, cry out, or mix into something else’[26].

Em todas as fases, entretanto, um elemento comum percorre o estudo das personae, ou seja, a vida da alma individual em relação às vidas passadas. Esta filosofia em Yeats é marcada sempre por uma sabedoria das sensações e, portanto, formula-se como anti-filosofia, pois na mesma medida em que cria, descrê dos conceitos: tudo contribui para aquela máquina de abstração do poeta, para a sua saga. A questão  é  que entre uma unidade primária e objetiva  e uma individualidade antitética e subjetiva, as variações são tantas e, muitas vezes, tão arbitrárias, que seria impossível apresentá-las aqui. Esta situação, requer, ao nosso ver, um conceito de impossibilidade que possa abrir o sistema em Yeats. Nesta vacilação paira a sua visão.


Este âmbito de uma múltipla completude, que lembra um campo de Imanência, é orientado muito pela emergência de um décimo-terceiro cone no Livro II de A Vision. Esta esfera indicaria um Deus, uma última realidade, um esfera sem fases. O número 13 aqui deve-se ao fato de ser um excesso em relação aos 12 giros que constituem, na simbologia yeatsiana, 'A Great Year’, um ciclo completo da história. Este décimo-terceiro cone tem, portanto, um valor suplementar em relação  ao resto. Ele indica a liberdade que Yeats deseja. Este cone é o lugar onde todas as almas são postas em liberdade e situa-se fora do tempo e do espaço. Curioso observar que, pela descrição de Yeats, tal cone ocorre desde o movimento antitético que conduz ao duplo de uma vida individual. Contudo ele congrega todos os espíritos. Ele é, por isso, a prova final da Gnose de  A Vision. Ainda que o poeta indique que a liberdade vem pela imaginação e pelo desejo, ao resgatar este décimo-terceiro cone para dentro de seu sistema, ele forma uma idéia do milagre como instância final da liberdade, ainda que não seja dogmático em termos de fazer disto uma certeza. Ao mesmo tempo em que é o Cone da Imanência, ou, por isso mesmo, este é também o cone da singularização, pois atua com o 'Espírito' na projeção do nascimento de uma nova individualidade. O que ocorre naquela comunidade são relações de intensidade através da simplicidade na formação do novo. Ter negada aquela experiência seria tornar-se vítima do espírito do décimo-terceiro Cone e ser condenado à morte em vida, ameaça maior a um vida movida pela força da imaginação que o poeta almeja. Aquele 'Deus', como um décimo-terceiro Cone, habitaria a própria idéia de liberdade.

Seria interessante, por isso, pensar na perspectiva de uma indecibilidade na obra de Yeats habitando a própria decisão (para lembrar Derrida). Isto não significa propriamente uma negação da suas teses anteriores, nem tampouco uma síntese, mas uma espécie de absorção do criador para dentro do ritmo que movimenta a sua obra. Ou revertendo os termos do poeta, encontrar a simplificação através de intensidade, entrando dentro de 'uma condição de fogo’.

Conforme o poeta cresce em liberdade estética e assume sua condição  solitária de visionário, ele parece caminhar deliberadamente em direção a estas ambiguidades. Em poucos momentos na obra de Yeats, vemos tal indecibilidade mais explícita do que em ‘Vacillation’[27],

 

Between extremities

Man runs his course;

A brand, or flaming breath,

Comes to destroy

All those antinomies 

Of day and night;          

The body calls it death,    

The heart remorse.    

But if these be right 

What is joy? [...]

 

Neste poema da sua maturidade, do mesmo grupo onde fazem parte ‘Bizâncio’ e ‘A Dialogue of Self and Soul’, a grandeza do poeta emerge de sua incerteza e dúvidas em relação às suas tantas mitologias. Não por acaso, numa primeira versão, o poeta chamou a sequência (composta de sete estrofes) de ‘sabedoria’, ou ‘pobre sombra da intensidade da experiência’, referindo-se à expressão da dupla imagem que gerou o poema, ‘the autumnal image, remote, incredibly spiritual, erect, delicate featured, and mixed with it the violent physical image, the black mass of Eden’[28]. Aqui são lembrados os giros de A Vision, o complexo movimento que não implica uma dialética dos sentidos, mas é uma experiência gnóstica entre vida e morte. Nem uma decisão é tomada já que a oscilação é constitutiva do movimento. Antes do que vacilar entre contrários, o poeta vacila entre negatividades, chegando ao ceticismo em relação a si, frente à perspectiva de uma verdade profunda sem imagens. As antinomias são destruídas, desta forma, tanto pela morte do corpo como pelo remorso do coração, mencionados no desenvolvimento do poema. A morte antes do que resolver as antinomias, é, na sua destruição, a própria expressão daquelas. De resto, isto está de acordo com A Vision, onde é afirmado: ‘death cannot solve the antinomy, death  and life are its expression’[29]. Aqui o poeta abandona um sentido religioso da poesia, acreditando no evento do poema. Yeats parece estar condenado, neste caso, a conhecer aquilo que sabe: a incessante vacilação garante o fluxo da poesia e impede o poeta de ser consumido na 'simplicidade do fogo'. Neste movimento, a beleza da poesia vem de um encontro entre o formalismo da obra e a fragilidade do homem que tende ao esquecimento de si.

Seria interessante aprofundar tal pensamento com Emmanuel Levinas[30]. O filósofo, convergentemente, entende a existência como anterior ao mundo; o ser coincide com o fato do , de que se é. A conquista de algo pelo que existe depende de uma existência prévia. Isto, entretanto, não responde à questão do que seja o ser, apenas indica uma relação. O ser é essencialmente estranho. Levinas se interessa, portanto, com a relação entre o existente e a existência, do nascimento do existente dentro da existência.

Neste sentido, ele destaca, entre o que chama de posições em relação à existência, a preguiça e o cansaço enquanto formas de hesitação, de vacilação. Tratam-se de conteúdos que não revelam aquilo que cumprem, ou seja, há uma recusa impotente, um pensamento de recusa. Poderíamos pensar tais formas de hesitação aqui como um recuo diante da existência. A preguiça denuncia precisamente isto: a dureza de um contrato irrescindível. Uma impossível recusa, em outros termos. Ela almeja evadir-se da existência, existindo. Contudo, não há um itinerário previsto, trata-se, justamente, de partir por partir.

A preguiça e a fadiga, enquanto formas de hesitação, não são ociosas. Há uma atitude neste caso. Elas não confundem-se com a simples indecisão. A hesitação não se localiza no fim, mas antes do esforço. Ela pode, evidentemente, vir a ser superada pelo esforço, mas a sua especificidade está na impossibilidade ou na recusa em começar. No jogo da hesitação da preguiça, há uma leveza que permite a interrupção do jogo a qualquer momento. Ela pode acabar porque não teve começo. Trata-se de uma presença sempre em ausência, como um outro que se retira e não cessa de retirar-se.

Quando, finalmente, o ato começa, ele, inalienavelmente, não pode voltar atrás. Interromper aquilo que foi começado, de fato, é terminá-lo num fracasso e inscrever o fracasso como parte da aventura. Nas palavras do próprio Levinas, ' a preguiça como recuo diante do ato, é uma hesitação diante da existência, uma preguiça de existir'.

 A questão não é valorar a preguiça como forma de hesitação, no nosso caso, mas estabelecê-la como uma posição antes do começo e que se abstém do futuro. Ela marca, juntamente com o cansaço, uma hesitação para com a existência, desde onde é invocada a inscrição de um existente que assumira a tarefa surgida do ato mesmo da hesitação.     

 Poderíamos associar este processo com o distanciamento do poeta de seu próprio historicismo e de seu particular apocalipse. O que, novamente, parece-nos algo mais complexo do que um simples revisionismo, mas é efeito do movimento que o poeta entendeu. O velho homem continua até o fim a tirar algo de sua mitologia, ainda que seja para destruí-la ou transfigurá-la, como fez com a morte de Cuchulain, na última peça que escreveu. O sistema mesmo parece ganhar em abstração contra uma possível esquematização racionalista. O 'tornar-se' ato de imaginação da últimas obras do dramaturgo Yeats revela a intensidade de uma inumanidade que predomina na luta entre self e soul.

 Esta processualidade gnóstica encarrega-se de ‘deixar as coisas passarem’, mesmo com aquele encontro entre historicidade e destino que ocorre em A Vision. Aquele décimo-terceiro Cone garante este espaço contínuo de liberdade dentro da duração da poesia, instalada no seu presente perfeito. Destino, de resto, que só seria encontrado no único absoluto que permanece ao longo de sua obra: a autonomia da imaginação celebrando o encontro entre a solitária voz do poeta e as múltiplas vozes com as quais ele entra em conjunção. O solitário na sua busca negativa não pode abandonar o seu potencial inventivo. Ele torna-se soul só para voltar ao self, revitalizado; só para poder perder-se no mais externo de si.


 Conforme avançamos nas fases, ocorre um fenômeno de fragmentação como resistência àquela Unidade do Ser, com a dramatização do fragmento. A Vision formaliza, assim, uma modernidade: ‘Wheter the man be in or out of fase, there is the desire to escape from Unity of Being or any approximation towards it, for Unity can be but a simulacrum now’[31]. Tal descrição do que ocorre na fase 19, indicaria uma selvagem intensidade e inclui Byron e Oscar Wilde. O movimento em direção às fases seguintes parece reforçar uma audácia filosófica, capaz de questionar a si mesmo em conflito com seu contexto, resultando em singularidade e invenção. Ainda que haja uma tendência à sistematização, esta parece ser frustrada a cada fase, simplesmente porque os homens de cada fase entram e saem dela, confirmando a iminência de uma negação. Se uma caracterização primária acentua-se aqui, ela nunca consegue ser absoluta. Isto marca as antíteses em Yeats: elas não se confundem com oposições, levando-nos a pensar que a redução da obra de Yeats a um elemento (influência, gnosticismo, romantismo tardio) é uma redução da leitura, não do texto em si, o qual se pluraliza nas suas camadas. Celebração do múltiplo, da eventualidade plural, o desejo intensifica-se, para, na fase 27, chegar ao desejo do nada, ou o desejo de tudo: do fluxo da vida total atravessar a humanidade. Não seria preciso dizer que o sistema desemboca na sua impossibilidade, no seu retorno a uma objetividade total e impossível, ao não-humano do homem. Espécie de transcendência não-antropocêntrica, poderíamos pensar.

 A instância daquela transcendência é chamada por Yeats de décimo-terceiro Cone, o qual ainda que fora do espaço e do tempo, ‘intersecta’ os outros cones. Esta conexão, para Yeats, vincularia o homem ao não-humano, ao anterior da concepção e ao posterior, à morte, ou seja, anularia o segmentar e suas oposições. O após morte, implicaria um sonho de retorno, onde intensidades são repetidas de forma diferente, ou seja, a repetição como diferença. O termo décimo-terceiro Cone na obra de Yeats interessa-nos, particularmente, pela sua relação com uma poética. Enquanto esfera, ele é duplo, é uma esfera consistente e uma esfera crítica em relação à história que atravessa: 'gentleness and violence alike express the gyre's hesitation'[32]

 O poeta percebe, já no seu tempo, uma força mecânica que  mistura estilos e heterogeneidades. Neste embaralhamento, o poeta admite a própria fragilidade de sua visão frente a uma multiplicidade que o excede, e faz desta consciência uma força: ‘I can recognise that the limit itself ha become a new dimension, that the ever-hidden thing which makes fold our hands has begun to press down upon multitudes’[33]. Seu heroísmo maior, portanto, é menos a articulação de seu complexo e insuficiente sistema, mas de não aceitar a rigidez de uma linha de vida, de sua existência e de seu tempo, e continuar a tornar-se alguma outra coisa. No décimo-terceito Cone, o poeta conclui pelo segredo do que fazer com a liberdade que este implica, e encerra a obra com a dúvida entre imagem e humanidade, entre orientar-se por uma linhagem e caminhar em êxtase pela escuridão. Em Yeats, a hesitação afirma o poder do suplemento: escadas que se abrem em espiral, flechas lançadas no infinito.



[1] W. B. YEATS, ‘Letter to Ethel Mannin’, out. 1938, in Letters of W.B. Yeats, London, Rupert Hart-Davis, 1954, p. 917.

[2]W.B.Yeats, ‘A Prayer for Old Age’, in A Full Moon in March (1934), in Selected Poetry, London, Penguin Books, 1991, 189.

[3]W.B.Yeats, Autobiographies, London, Mcmillan, 1980.

[4]James Olney, The Rhizome and the Flower, London, University of California Press, 1980.

[5]W.B. Yeats, ‘An Indian Monk’, in Essays and Introductions, London, Mcmillan, 1961, p. 429.

[6]Olney, The Rhizome and the Flower, p. 18.

[7]W. B. Yeats, A Vision, London, Mcmillan, 1981, pp. 105-186.

[8]Félix Guattari, Chaosmosis - an ethic-aesthetic paradigm, Sydney, Power, 1992, pp. 58-76

[9]Yeats, p. 20; Yeats, ‘Introduction’ a  The Words Upon the Window-pane, in Selected Plays, London, Mcmillan, 1991.

[10]W.B.Yeats, ‘On the Boiler’, in Explorations, London, Mcmillan, 1962, pp. 415-416.

[11]W.B. Yeats, ‘Per Amica Silentia Lunae’, in Mythologies, London, Mcmillan, 1959, pp. 319-369.

[12]Cf. Raymond Cowell (org.), Critics on Yeats, London, George Allen and Unwin, 1971.

[13]Olner, The Rhizome and the Flower, pp. 234-287.

[14]Yeats, A Vision, p. 39.

[15]Ibid., p. 40.

[16]Robert Snukal, High Talk - the Philosophical Poetry of W. B. Yeats, London, Cambridge University Press, 1973.

[17]Snukal, High Talk, pp. 16-17.

[18]Yeats, A Vision, p. 40.

[19]Ibid., p. 73.

[20]Yeats, A Vision, p. 8.

[21]Cf. Harold Bloom, Yeats, New York, Oxford University Press, 1970.

[22] A primeira edição de A Vision é de 1925; a segunda, com várias modificações feitas pelo autor, é de 1937, tendo sido republicada desde então.

[23]Cf. Yeats, A Vision, pp. 68, 71-72, 74-81.

[24]Cf. Yeats, Autobiographies, pp. 26, 97, 116.

[25]Cf. Yeats, A Vision, pp. 135-136.

[26]Ibid., pp. 140-145.

[27]Yeats, ‘Vacillation’. In:The Winding Stair and Other Poems, in Selected Poetry, pp. 175-177

[28]Yeats, ‘Letter to Olivia Shakespear, 23 nov. 1931, in The Letters of W.B.Yeats, p. 785.

[29]Yeats, A Vision, p. 52.

[30] Emmanuel Levinas, Da Existência ao Existente, Campinas, Papirus, 1998.

[31]Yeats, A Vision, p. 149.

[32]Yeats, ‘Book IV: The Great Year of the Ancients’, in A Vision, pp. 243-263.

[33]Ibid., p. 300.